Rodei anos de aplicativo antes de entender uma coisa simples: nenhum app recolhe INSS por você. A plataforma repassa a corrida e acabou. Se você não emitir a guia e pagar, não existe contribuição, não existe carência e não existe benefício no dia em que o carro para ou o corpo para.

Esse é o risco silencioso da profissão. Ninguém sente falta do INSS enquanto está rodando bem. A conta chega numa cirurgia, numa batida ou num afastamento de dois meses.

Em 2026 existem três caminhos para se proteger, todos pagos por você: MEI, plano simplificado do contribuinte individual e plano normal. O PLP 152/2025 propõe dividir essa conta com as plataformas, mas segue parado na Câmara.

Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional qualificado. Para escolher contribuição, regularizar atrasados ou avaliar benefício do INSS, consulte um contador ou advogado previdenciário.

Quanto custa contribuir para o INSS em 2026

Os valores abaixo seguem o salário mínimo de R$ 1.621,00 e a Portaria Interministerial MPS/MF nº 13, de 9 de janeiro de 2026, que fixou o teto do salário de contribuição em R$ 8.475,55.

Forma de contribuirValor mensal em 2026Guia e vencimentoAposentadoria por tempo de contribuição
MEI (prestador de serviço)R$ 86,05DAS, dia 20Não
Plano simplificado (11%)R$ 178,31GPS código 1163, dia 15Não
Plano normal (20%)R$ 324,20 a R$ 1.695,11GPS código 1007, dia 15Sim

A diferença entre a primeira e a última linha é de R$ 1.609,06 por mês. Esse valor define o tamanho do benefício que você vai receber lá na frente. Decida olhando para a aposentadoria que quer, e não só para a parcela que cabe hoje.

1. MEI: R$ 86,05 por mês

O MEI para motorista é a opção mais usada porque é fixa e simples. Como motorista de app você entra como prestador de serviço, então o DAS soma R$ 81,05 de INSS (5% do salário mínimo) e R$ 5,00 de ISS, totalizando R$ 86,05 por mês, com vencimento no dia 20.

O que entra: aposentadoria por idade, auxílio por incapacidade temporária, salário-maternidade, pensão por morte e auxílio-reclusão. Vem junto um CNPJ, que ajuda na hora de financiar veículo ou comprovar renda.

O que fica de fora: aposentadoria por tempo de contribuição, e o benefício fica limitado a um salário mínimo.

Atenção: existe uma segunda tabela do MEI, com INSS de R$ 194,52, mas ela é exclusiva do MEI-caminhoneiro (transportador autônomo de cargas). Motorista de passageiros e entregador comum ficam na tabela normal, de R$ 81,05.

2. Plano simplificado: R$ 178,31 por mês

É o contribuinte individual que recolhe 11% sobre o salário mínimo, sem abrir CNPJ. A guia é a GPS com código 1163 e vence no dia 15 do mês seguinte ao da competência.

A restrição é a mesma do MEI: dá aposentadoria por idade, não por tempo de contribuição. A diferença é que o valor pago é mais alto e não vem com CNPJ nem com nota fiscal.

Dica: quem está no plano simplificado e depois muda de ideia não perde o período. O INSS permite complementar cada competência com mais 9% acrescidos de juros para que aquele mês conte como tempo de contribuição. O acerto é feito competência por competência, então quanto antes você resolver, menos juros acumula.

3. Plano normal: 20% sobre a renda declarada

Aqui você declara quanto ganhou e recolhe 20% sobre esse valor, respeitando o piso de R$ 1.621,00 e o teto de R$ 8.475,55. Na prática, de R$ 324,20 a R$ 1.695,11 por mês, na GPS com código 1007, vencimento dia 15.

É o único caminho que dá acesso completo aos benefícios, incluindo tempo de contribuição e benefício acima do salário mínimo. Também é o mais caro, e foi onde eu travei quando tentei: no mês de faturamento fraco, R$ 324,20 competindo com a parcela do carro é uma conta que ninguém paga com folga.

Como escolher entre MEI e contribuinte individual

Não existe resposta única, mas a decisão fica mais fácil respondendo a quatro perguntas:

  1. Você quer CNPJ? Se precisa emitir nota ou comprovar renda para financiamento, MEI resolve os dois de uma vez.
  2. Quanto cabe no caixa todo mês, sem falhar? Contribuição intermitente é o erro mais caro da profissão. Melhor R$ 86,05 pagos por 12 meses seguidos do que R$ 324,20 pagos quatro vezes no ano.
  3. Você aceita se aposentar com um salário mínimo? Se aceita, MEI ou plano simplificado dão conta. Se não, o plano normal é o único caminho.
  4. Você já contribui por outro vínculo? Quem tem carteira assinada em outro emprego já está coberto e precisa avaliar a soma com um contador antes de pagar duas vezes.

Vale cruzar essa decisão com o quanto você tira de fato por mês. O guia de ganhos médios de motorista ajuda a colocar um número real no lugar do palpite.

Com quantos anos dá para se aposentar

Pela regra geral da aposentadoria por idade urbana, os requisitos são 65 anos para homem e 62 anos para mulher, com no mínimo 15 anos de tempo de contribuição e carência de 180 contribuições.

Quem contribui pelo MEI ou pelo plano simplificado alcança essa modalidade. Para que o período também conte como tempo de contribuição, é preciso recolher os 20% ou complementar os 9% descritos acima.

Como as regras de transição da reforma de 2019 mudam ano a ano, o número que vale é o do seu extrato. Use o simulador do aplicativo Meu INSS, que puxa suas contribuições reais e mostra quanto falta no seu caso.

O que o PLP 152/2025 propõe e por que ainda não vale

O PLP 152/2025 quer criar um regime previdenciário próprio para o trabalhador de plataforma, com a conta dividida entre motorista e empresa. Pela proposta:

  • O motorista contribuiria com 5% sobre o salário de contribuição, que corresponde a 25% da remuneração bruta mensal.
  • A plataforma pagaria 20% sobre essa mesma base, com a alternativa de recolher 5% sobre a receita bruta obtida no mercado brasileiro.

Num faturamento bruto de R$ 6.000,00, a base seria R$ 1.500,00. O desconto do motorista ficaria em R$ 75,00, e a plataforma entraria com R$ 300,00. Bem abaixo dos R$ 178,31 ou R$ 324,20 que o autônomo paga sozinho hoje.

Atenção: isso é proposta, não é lei. O parecer do relator foi apresentado em 7 de abril de 2026, a reunião marcada para votar em 14 de abril foi cancelada e, até o fechamento desta atualização, o projeto está "pronta para pauta" na Comissão Especial sem nova data. Se alguém disser em grupo que a Uber já desconta INSS por causa do PLP 152, está errado.

Enquanto isso não muda, a regra que vale para você é a do contribuinte individual. O panorama completo de direitos está no guia de legislação e direitos do motorista.

Erros que custam benefício

  1. Contribuir só quando sobra. A carência de 12 meses do auxílio por incapacidade temporária não se importa com o seu mês ruim. Um buraco na sequência derruba a qualidade de segurado e você recomeça a contagem.
  2. Acumular DAS sem pagar. Guia atrasada gera juros e, no acumulado, tira a proteção no período em que você achava que estava coberto.
  3. Não conferir o CNIS. O extrato do Meu INSS mostra o que ficou registrado no seu nome. Já vi caso de pagamento feito com código errado que nunca apareceu no extrato. Só corrige quem confere.
  4. Confundir a proposta com a regra atual. Os 5% sobre 25% do faturamento são do PLP 152/2025. Quem contribui hoje recolhe sobre o salário mínimo ou sobre a renda declarada, não sobre um quarto do que faturou.
  5. Tratar INSS como reserva de emergência. O INSS cobre afastamento longo e aposentadoria. Pneu estourado e três dias parado se pagam com dinheiro guardado, não com benefício.

Como começar ainda este mês

  1. Entre no Meu INSS e confira seu CNIS: veja o que já está registrado no seu nome.
  2. Escolha a forma de contribuir usando as quatro perguntas da seção anterior.
  3. Se for MEI, formalize no Portal do Empreendedor e programe o DAS para o dia 20. Se for contribuinte individual, gere a GPS com o código 1163 ou 1007 e programe para o dia 15.
  4. Coloque o vencimento no débito automático ou num lembrete fixo do celular. A regularidade vale mais do que o valor.
  5. Revise uma vez por ano, quando o salário mínimo for reajustado e os valores mudarem.

Se a sua renda variou muito nos últimos meses, leve o extrato ao contador antes de fixar o valor. O guia de imposto de renda para motorista de app mostra como organizar esses números.

Comece pelo passo 1 hoje: abra o Meu INSS e olhe seu extrato. Dá cinco minutos, e é o único jeito de saber se você está protegido ou só achando que está.