Use o valor que aparece no app como faturamento. O dinheiro que paga suas contas fica depois de combustível, manutenção, pneu, seguro, imposto, depreciação, aluguel e tempo parado.
Existe um número oficial para começar a conta. No terceiro trimestre de 2024, o IBGE apurou renda média de R$ 2.766 por mês e R$ 13,90 por hora entre os motoristas de automóvel que trabalhavam por aplicativo. Use isso para calibrar expectativa e depois faça a conta da sua cidade, do seu carro e das suas horas.
Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional qualificado. Para decisões fiscais, previdenciárias ou contábeis, consulte um contador.
Quanto ganha um motorista de app, segundo o IBGE
No terceiro trimestre de 2024, o motorista de automóvel que trabalhava por aplicativo declarou renda média de R$ 2.766 por mês e R$ 13,90 por hora. Esse é o número oficial mais recente do país.
Ele vem do módulo Trabalho por meio de plataformas digitais da PNAD Contínua, divulgado pelo IBGE em outubro de 2025. É um módulo experimental, feito em convênio com a Unicamp e o Ministério Público do Trabalho.
No período, o Brasil tinha 1,9 milhão de pessoas ocupadas como condutores de automóveis. Dessas, 824 mil (43,8%) trabalhavam por aplicativo.
| Indicador (3º tri. 2024) | Motorista por app | Motorista sem app |
|---|---|---|
| Renda média mensal | R$ 2.766 | R$ 2.425 |
| Rendimento por hora | R$ 13,90 | R$ 13,70 |
| Jornada semanal | 45,9 h | 40,9 h |
| Contribuía para a Previdência | 25,7% | 56,2% |
| Trabalhava na informalidade | 83,6% | 54,8% |
A leitura importante está na comparação entre as duas primeiras linhas. O motorista de app ganhava R$ 341 a mais por mês, mas trabalhava cinco horas a mais por semana. Por hora, os dois ficam quase iguais. Um terceiro recorte, fora da tabela, ganhava mais que os dois: entre os motoristas sem app com vínculo formal, o rendimento-hora era de R$ 14,70.
Destaque: só 25,7% dos motoristas de aplicativo contribuíam para a Previdência, contra 56,2% dos motoristas sem app. As regras de carência e de manutenção da qualidade de segurado são específicas e mudam conforme o tipo de contribuição: veja INSS e aposentadoria para motorista de app antes de decidir a sua.
O IBGE publicou o mesmo retrato para o conjunto dos trabalhadores de plataforma, somando motoristas, entregadores e prestadores de serviço. Os valores são outros, R$ 2.996 por mês e 44,8 horas semanais, mas o desenho se repete: jornada maior, previdência menor.
Vale registrar o que esse número é e o que ele não é. A PNAD pergunta o rendimento habitual do trabalho, então ele reflete o que o motorista declara receber, não um lucro auditado depois de combustível e manutenção. Serve como régua de realidade, não como promessa nem como custo apurado.
A série mais longa vem do Ipea, que analisou o mesmo mercado até 2022. Entre 2012 e 2015, quando havia cerca de 400 mil motoristas autônomos de passageiros, o rendimento médio girava em torno de R$ 3.100. Em 2022, com o total de ocupados perto de 1 milhão, o rendimento médio ficou abaixo de R$ 2.400. Mais gente disputando a mesma demanda derrubou a média por motorista.
Para o cenário completo de tamanho de mercado, veja o crescimento do número de motoristas de app no Brasil.
Bruto do app não é salário
Uber e 99 calculam ganhos de formas diferentes, mas as duas deixam uma coisa clara: o valor depende de cidade, horário, demanda, promoções e tipo de corrida.
A Uber informa que os ganhos são determinados pelas viagens feitas, pelo horário em que elas ocorrem e pela participação em promoções semanais. Na página de preços do marketplace, a empresa detalha o que entra no repasse do motorista: preço base, reembolso de pedágios, gorjetas, adicional por tempo de espera excedente, preço dinâmico, taxas de cancelamento e limpeza e promoções. A taxa de serviço é a diferença entre o que o passageiro paga e o que o motorista recebe, depois de deduzidas as taxas de terceiros e as gorjetas, e varia a cada viagem.
A 99 trabalha com ganho fixo: o valor que aparece antes do aceite é o que o motorista recebe no fim da corrida. A plataforma também lista incentivos como 99Abastece, Corra e Ganhe 99, Multiplica 99 e Rota99, além da taxa de cancelamento proporcional ao tempo e à distância percorridos.
Print de faturamento bruto não funciona como salário CLT. Motorista de app opera como pequeno negócio: entra dinheiro todo dia, mas o carro está sendo consumido todo dia.
Quanto dá por hora: o número do app e o número oficial
Aqui aparece a diferença que confunde quase todo mundo que pesquisa o assunto.
Na consulta feita em 1º de setembro de 2026, a estimativa da Uber para São Paulo era de R$ 1.750 por semana em cerca de 50 horas. Dividindo, dá algo perto de R$ 35 por hora. A própria Uber avisa, na mesma página, que a estimativa não inclui custos pelos quais o motorista é responsável, como combustível e manutenção.
O IBGE mede outra coisa: R$ 13,90 por hora, média nacional, a partir da renda que o motorista declara.
Os dois números estão certos porque medem coisas diferentes:
- a Uber estima ganho bruto de plataforma, só em São Paulo, usando quem dirigiu nas últimas quatro semanas;
- o IBGE mede renda declarada de trabalho, no país inteiro, incluindo cidade pequena e quem roda pouco;
- entre um e outro estão combustível, manutenção, pneus, seguro e depreciação, que a estimativa da plataforma não desconta.
A 99 documenta a fórmula dela: ganhos totais divididos pelas horas online, considerando apenas motoristas que fizeram pelo menos três corridas por dia no último mês. Cidades com menos de 20 mil corridas mensais ficam fora da conta, o que puxa a estimativa para o cenário das praças grandes.
Um detalhe da 99 ajuda a comparar direito: as horas online incluem o deslocamento até o passageiro, o embarque e o desembarque, não só o tempo com passageiro no carro. O tempo ocioso já está no denominador.
Dica: use a estimativa do app para dimensionar a operação e o número do IBGE para calibrar a expectativa. Quem planeja a vida pelo valor bruto da calculadora do app costuma descobrir o custo do carro tarde demais.
Como calcular o lucro líquido
A conta mínima é esta:
lucro líquido = faturamento bruto - combustível - manutenção - pneus - seguro - aluguel/depreciação - impostos - lavagens - pedágios não reembolsados
Exemplo com valores hipotéticos, para mostrar o formato da conta e não uma média de mercado:
| Item | Valor mensal |
|---|---|
| Faturamento bruto | R$ 6.500 |
| Combustível | - R$ 1.700 |
| Manutenção e pneus | - R$ 500 |
| Seguro/proteção | - R$ 350 |
| Depreciação ou reserva para troca | - R$ 700 |
| Impostos, lavagens e extras | - R$ 250 |
| Lucro líquido estimado | R$ 3.000 |
Esse motorista não "ganhou R$ 6.500". Ele faturou R$ 6.500 e ficou com algo perto de R$ 3.000 antes de considerar férias, doença, previdência e meses ruins.
Para transformar isso em meta, faça o caminho inverso: some seus custos fixos do mês, some a sobra que você precisa e divida pelos dias que pretende rodar.
| Meta líquida mensal | Custo mensal do seu carro | Bruto mensal necessário | Bruto por dia em 24 dias |
|---|---|---|---|
| R$ 2.500 | R$ 2.000 | R$ 4.500 | R$ 187,50 |
| R$ 3.500 | R$ 2.800 | R$ 6.300 | R$ 262,50 |
| R$ 5.000 | R$ 4.000 | R$ 9.000 | R$ 375,00 |
A tabela não promete que o app vai tocar nesse ritmo. Ela mostra o tamanho da operação que você precisa montar para a meta fechar.
Quanto o carro gasta de combustível por dia
Combustível é o maior custo diário e o mais fácil de medir. A conta é direta:
gasto do dia = (quilômetros rodados ÷ km por litro do carro) × preço do litro
Um carro que faz 10 km/l rodando 250 km no dia consome 25 litros. A R$ 6,00 o litro, são R$ 150 só de combustível, antes de qualquer outro custo. Troque os três valores pelos seus e você tem o número real, em vez de uma média de internet.
Dois cuidados que mudam o resultado: o consumo no trânsito urbano com ar-condicionado é bem pior que o do manual, e o quilômetro rodado vazio, indo buscar passageiro, gasta igual ao quilômetro pago. Para atacar esse custo, veja o guia de economia de combustível.
E se o carro for alugado?
Carro alugado troca depreciação, IPVA, parte da manutenção e risco de parada por um custo fixo pesado. Pode fazer sentido para quem roda muito, não quer imobilizar dinheiro em carro próprio ou precisa testar a atividade antes de comprar.
A diária pressiona a rotina. Se a locação custa R$ 2.700 por mês, você precisa faturar R$ 112,50 por dia útil só para pagar o carro em uma rotina de 24 dias. Isso vem antes de combustível, alimentação, internet, lavagem e reserva para imposto.
Use esta régua:
- se o aluguel cabe na meta sem obrigar hora fraca, pode ser ferramenta;
- se você precisa rodar cansado só para pagar a diária, o carro está mandando na sua rotina;
- se a locadora limita quilometragem, inclua o excedente no custo por km;
- se a manutenção inclusa reduz dias parados, compare com o custo real do carro próprio.
Para uma conta mais específica, veja aluguel de carros para Uber vale a pena?.
Custo por quilômetro é o número que manda
Se você não sabe seu custo por km, está rodando no escuro.
Um carro que custa R$ 0,85 por km para operar precisa de corridas bem diferentes de um carro que custa R$ 1,25 por km. O primeiro pode aceitar viagens médias com margem. O segundo começa a perder dinheiro em corrida longa, barata e sem volta.
Inclua no custo por km:
- combustível;
- óleo e filtros;
- pneus;
- freio;
- suspensão;
- seguro ou proteção;
- limpeza;
- depreciação;
- reserva para emergência.
Para evitar gasto corretivo, leia manutenção preventiva para motoristas de app.
A escolha do carro pesa mais que a taxa do app
Muita gente pergunta "qual app paga mais?", mas dirige um carro que consome demais. Isso mata o lucro antes da comparação entre Uber e 99.
Um carro bom para app precisa:
- consumir pouco;
- ter manutenção barata;
- aceitar uso intenso;
- ter seguro viável para atividade remunerada;
- ser confortável o suficiente para não derrubar avaliação;
- ter liquidez na revenda.
Se o carro faz 7 km/l no etanol e vive na oficina, a melhor estratégia de horário não salva o mês. Compare opções em melhores carros para Uber e 99.
Horário bom vale mais que hora longa
A jornada é o ponto mais duro dos dados oficiais. O motorista de app trabalhava 45,9 horas por semana em 2024, cinco a mais que o motorista sem app, para um ganho por hora praticamente igual. O Ipea já tinha registrado o mesmo movimento antes: cresceu a parcela de motoristas de passageiros com jornadas entre 49 e 60 horas semanais.
Hora fraca cansa, gasta carro e nem sempre paga.
Priorize:
- começo e fim do horário comercial;
- madrugada segura em regiões com demanda real;
- chuva com rota curta e boa margem;
- aeroportos quando a fila e a tarifa compensam;
- eventos com ponto de embarque organizado;
- janelas de promoção no app.
Evite ficar online só para "ver se toca". Tempo parado também é custo.
Multiapp ajuda, mas não resolve conta ruim
Rodar com Uber e 99 abertos pode reduzir ociosidade. A Uber tende a ter volume forte em muitas praças. A 99 mostra o valor da corrida antes do aceite e usa incentivos que podem melhorar determinados turnos.
Multiapp exige comparação antes do aceite:
- valor líquido por hora;
- distância até o passageiro;
- chance de volta carregado;
- região de destino;
- tempo parado depois da corrida;
- custo por km.
Se a corrida te leva para uma área sem demanda, o preço precisa pagar a ida e o risco de voltar vazio.
Antes de escolher qual segundo app abrir, compare a comissão de cada um no comparativo dos aplicativos para motorista e entregador.
O que medir no fim do dia e no fim do mês
Faturar R$ 262 em 8 horas é uma operação diferente de faturar R$ 262 em 13 horas. Por isso a meta diária só significa alguma coisa junto da quantidade de horas.
No fechamento do turno, anote bruto do app, horas online, quilômetros rodados, combustível gasto, região onde terminou e corridas recusadas por não fecharem a conta.
No fechamento do mês, responda sem maquiar:
- Meu lucro líquido bateu a meta?
- Meu custo por km subiu?
- Rodei muitas horas fracas?
- Aceitei corrida longa demais para destino ruim?
- Tive manutenção corretiva que poderia ter sido preventiva?
- Separei dinheiro para imposto, previdência e troca de pneus?
- Minha média por hora melhorou ou só trabalhei mais?
Se três respostas forem ruins, ajuste o plano do mês seguinte.
Vale a pena ser motorista de app?
Vale quando você trata como operação, não como bico sem conta. O app pode gerar caixa rápido, flexibilidade e renda extra. Também pode consumir carro, saúde e tempo se o motorista olhar só o bruto.
Minha régua é simples: se você não consegue medir lucro líquido por dia, custo por km e ganho por hora, ainda não sabe se está ganhando dinheiro.
Comece hoje pelo mais barato de fazer: anote por sete dias o bruto, as horas online e os quilômetros rodados. Com esses três números você já calcula seu ganho por hora real e compara com os R$ 13,90 do IBGE.


