Quem dirige para Uber ou 99 sabe que o carro não descansa. Duzentos, trezentos quilômetros por dia em asfalto urbano cheio de buracos e frenagens: o desgaste dos pneus acontece em velocidade muito maior do que para quem usa o carro só para ir ao trabalho. Já rodei com pneu careca por inércia, achando que dava para aguentar mais uma semana. Custou um susto numa frenagem na chuva e uma multa.

Escolher o pneu certo não é gasto, é parte do cálculo de custo da operação. Neste guia eu explico o que olhar antes de comprar, o que a lei exige e quando trocar.

Como ler as medidas do pneu

Antes de comprar qualquer pneu, olhe a placa na coluna da porta do motorista. Lá está a medida exata que o fabricante especificou para o seu modelo. O número tem o formato:

195/65 R15

Cada parte tem um significado direto:

  • 195: largura do pneu em milímetros
  • 65: perfil, a altura da parede lateral como porcentagem da largura. Quanto menor, mais baixo e mais esportivo
  • R: radial, o tipo de construção interna
  • 15: diâmetro do aro em polegadas

Depois das dimensões vem o índice de carga e o de velocidade. Num pneu marcado como 91H, o 91 significa 615 kg de capacidade por pneu e o H permite rodar até 210 km/h, segundo a tabela da Michelin. Para trabalho de app o índice de carga importa: carro com quatro passageiros e mala pesa bem mais do que você imagina.

A regra da Michelin é simples: você pode usar índice de carga maior que o especificado, nunca menor. Pneus de mesma medida podem ter índices diferentes, então confira a marcação e não só o 195/65 R15.

O que diz a etiqueta do Inmetro

Pneu novo vendido no Brasil precisa ser certificado pelo Inmetro, hoje sob a Portaria nº 379/2021, e traz a etiqueta do Programa Brasileiro de Etiquetagem. São três critérios, cada um classificado de A (melhor) a G (pior).

Aderência em piso molhado

Este é o critério mais importante para quem trabalha com passageiro. Segundo a Michelin, a diferença entre a nota A e a nota B representa cerca de 3 metros a mais na distância de frenagem em piso molhado. Entre A e C são 7 metros. Entre A e F, 18 metros.

Sete metros é a distância entre parar antes da faixa e parar em cima dela. Priorize nota A ou B aqui, mesmo pagando um pouco mais.

Resistência ao rolamento

Quanto menor a resistência ao rolamento, menos esforço o motor faz para mover o carro e menos combustível você queima. É o critério que aparece direto na sua conta no fim do mês, especialmente para quem roda 250 km por dia. Trato disso em detalhe no guia de economia de combustível para motoristas de app.

Ruído externo

Medido em decibéis, afeta o conforto acústico dentro do carro. Menos ruído significa menos fadiga para você em turnos longos e mais conforto para o passageiro, o que reflete na avaliação.

Dica: Ao comparar pneus na loja, peça para ver a etiqueta dos dois modelos lado a lado. Priorize aderência molhada primeiro, resistência ao rolamento segundo, ruído terceiro.

Idade do pneu: como ler o código DOT

Pneu não envelhece só rodando. A borracha resseca com o tempo, perde elasticidade e compromete a aderência mesmo com o carro parado. Por isso a data de fabricação importa tanto quanto o preço.

Procure o código DOT na lateral do pneu. Os quatro últimos números dizem quando ele foi feito: DOT 3521 significa 35ª semana de 2021.

Lateral de um pneu com o código DOT em relevo, destacando os quatro últimos dígitos que indicam a semana e o ano de fabricação
Código DOT gravado na lateral do pneu: os quatro últimos dígitos indicam semana e ano de fabricação. Fonte: Michelin Brasil

Confira isso antes de fechar a compra. Pneu de promoção às vezes é estoque que ficou dois ou três anos parado no depósito, e você paga por um produto que já gastou parte da vida útil na prateleira. Se o desconto for grande e a data recente, ótimo. Se o desconto vier junto com um DOT de três anos atrás, o cálculo muda.

Tipos de pneu: qual escolha faz sentido para app

O mercado divide os pneus em três grandes categorias de uso. Para motorista de app urbano, a escolha é quase sempre a mesma:

On-road (highway terrain / HT): Feito para asfalto. É o padrão para hatchbacks e sedãs populares como Ônix, HB20, Kwid e Polo. Boa durabilidade, baixo ruído, confortável. É a escolha certa para quem roda app na cidade.

Misto (all-terrain / AT): Serve para cidade e estrada de terra. Mais pesado, mais ruidoso, desgasta mais rápido no asfalto. Faz sentido para quem mora em cidade com muitas ruas não pavimentadas ou roda em área rural.

Off-road (mud terrain / MT): Para lama e trilha. Não tem lugar em carro de app urbano. Consome mais combustível, faz muito barulho e desgasta rápido no asfalto.

A tentação de colocar pneu esportivo ou de perfil mais baixo para dar uma cara diferente ao carro existe, mas é cilada. Pneu de alto desempenho tem borracha mais macia, que agarra melhor e dura menos. Em uso intenso de app, a troca chega bem antes.

Conforto e maciez: por que isso importa no app

Cidades brasileiras têm paralelepípedo, buraco e lombada a cada esquina. Pneu com perfil muito baixo (relação de 45 ou menos) transmite mais impacto para a suspensão e para o motorista. Depois de 10 horas rodando, isso cansa.

Para carros populares que rodam app, perfis entre 55 e 70 oferecem o melhor equilíbrio. Absorvem melhor as irregularidades do asfalto sem sacrificar estabilidade. Deixar o carro com cara esportiva não compensa quando você precisa de conforto por turnos longos.

Composição da borracha e durabilidade

A borracha define quanto o pneu vai durar, e a troca é sempre a mesma: composto mais macio adere melhor e se gasta mais rápido. Composto mais duro dura mais e entrega menos numa emergência.

Para uso de app, procure pneus classificados no mercado como touring ou conforto. Eles ficam no meio do caminho: duram bem sem sacrificar a aderência em piso molhado.

Na prática, um HT bem calibrado e com rodízio em dia costuma render bem mais quilômetros que um pneu de alto desempenho na mesma rotina. A quilometragem exata varia com o piso da sua cidade, o peso que você carrega e o seu jeito de frear, então trate qualquer número de catálogo como estimativa, não como promessa.

Quando trocar o pneu

O indicador TWI

Todo pneu tem o Tread Wear Indicator (TWI), um bloco de borracha embutido nos canais de drenagem do sulco. Quando o desgaste faz o sulco nivelar com esse bloco, o pneu chegou ao limite.

Para encontrar o TWI, olhe a lateral do pneu: há uma seta ou o símbolo "TWI" em relevo indicando onde está o bloco. Com o pneu montado, olhe de frente para o sulco naquele ponto.

A Goodyear sugere verificar a profundidade a cada 5.000 km e considerar a troca já aos 3 mm, antes de chegar ao mínimo legal.

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O olho não distingue 3 mm de 1,8 mm, e é justamente nessa faixa que a decisão de trocar acontece. Se você quer parar de chutar, um medidor digital de sulco com leitura de 0 a 25 mm resolve em segundos e mostra o número em milímetros, que é a unidade que a lei brasileira usa. Vale comparar o preço atual antes de comprar.

A Resolução CONTRAN nº 913/2022 proíbe a circulação de veículo com pneu cujo desgaste tenha atingido os indicadores ou cuja profundidade remanescente da banda de rodagem seja inferior a 1,6 mm.

A resolução manda enquadrar a infração nos incisos X ou XVIII do art. 230 do Código de Trânsito Brasileiro. Na prática, isso significa:

  • Infração grave
  • Multa de R$ 195,23
  • 5 pontos na CNH
  • Medida administrativa: retenção do veículo para regularização

A retenção costuma doer mais que a multa. O carro fica parado até você regularizar o pneu, no meio da tarde, e o resto do turno vai embora junto.

Abaixo de 1,6 mm o sulco também perde capacidade de escoar água. É assim que começa a aquaplanagem em chuva forte: a borracha deixa de tocar o asfalto e o carro passa a deslizar sobre a lâmina d'água.

Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional qualificado. Regras de trânsito e valores de multa mudam; confirme no órgão de trânsito do seu estado e, em caso de autuação, consulte um advogado.

A regra dos 5 e dos 10 anos

Mesmo com sulco bom, a borracha envelhece. O manual da Pirelli recomenda inspeção periódica em pneus com mais de 5 anos de fabricação. A Michelin vai além: inspeção anual por profissional a partir dos 5 anos e substituição aos 10 anos contados da data de fabricação, independentemente da aparência.

Fique de olho também em:

  • Rachaduras visíveis na lateral ou no fundo do sulco
  • Bolhas ou deformações na parede
  • Vibração estranha na direção, que pode indicar estrutura interna danificada
  • Desgaste irregular, mais intenso de um lado que do outro, sinal de desalinhamento ou problema de suspensão

Posso trocar só um pneu?

Pode, e às vezes é o que cabe no bolso da semana. Mas a Resolução CONTRAN 913/2022 exige que os dois pneus montados no mesmo eixo sejam de construção idêntica, mesmo tamanho, mesma capacidade de carga e em aros de dimensões iguais. A única exceção prevista é a assimetria causada pela troca pelo estepe numa emergência.

Ou seja: dá para trocar só os dois da frente, mas não dá para deixar um pneu de marca e medida diferente ao lado do outro no mesmo eixo.

Atenção: Pneu de construção ou medida diferente ao lado do outro no mesmo eixo é irregular pela Resolução 913/2022, mesmo com os dois novos. Compre em par.

Sobre pneu remoldado ou recauchutado: a Resolução 913 proíbe o uso em motos, motonetas, ciclomotores, triciclos e no eixo dianteiro de ônibus e micro-ônibus. Para carro de passeio não existe essa proibição, mas em rotina de app, com 250 km por dia e frenagem constante, o remold entrega menos vida útil e menos margem de segurança do que a diferença de preço sugere.

Calibragem: pressão certa economiza dinheiro

Pneu murcho é prejuízo duplo: consome mais combustível e desgasta mais rápido. O manual da Pirelli recomenda calibrar pelo menos uma vez por semana e sempre antes de viajar, com os pneus frios.

A pressão correta do seu carro está:

  • Na etiqueta colada na coluna da porta do motorista
  • No manual do proprietário
  • Às vezes na tampa do tanque de combustível

Calibre antes de começar o turno ou com o carro parado há pelo menos 3 horas. Com o pneu quente a pressão interna já subiu, e o valor que você lê no calibrador não corresponde à pressão real com o pneu frio. Se precisar de referência por modelo, veja a tabela de calibragem de pneus.

Calibrar com o pneu frio significa passar no posto antes de rodar, e nem sempre dá. Para quem se pega adiando isso, um calibrador compressor portátil digital permite ajustar a pressão na garagem, com o carro parado desde a noite anterior. O modelo mostra a leitura em PSI, BAR, KPA e kg/cm² e cabe no porta-luvas.

Balanceamento e rodízio: quando fazer e por que não pular

Balanceamento

O balanceamento corrige a distribuição de peso das rodas. Pneu desbalanceado vibra em velocidade mais alta, desgasta de forma irregular e compromete a estabilidade. A Pirelli orienta fazer balanceamento e alinhamento entre 5.000 e 10.000 km, além de sempre que houver troca de pneu ou reparo. Veja quando fazer alinhamento e balanceamento e quanto custa.

Para quem roda 250 km por dia, isso cai a cada 20 a 40 dias de trabalho. Vale incluir no planejamento de custos: o serviço sai entre R$ 60 e R$ 120 nos quatro pneus na maioria das oficinas.

Rodízio

O rodízio troca a posição dos pneus entre os eixos para equalizar o desgaste. Em carro de tração dianteira, que é a maioria da frota de app no Brasil, os pneus da frente gastam bem mais rápido. Sem rodízio, você troca os dois da frente muito antes dos de trás.

A Pirelli indica o mesmo intervalo do balanceamento: 5.000 a 10.000 km, respeitando o que o manual do seu carro recomenda. Em uso intenso de app, isso significa uma vez a cada 3 a 6 semanas. Combine com o balanceamento para economizar na mão de obra.

O custo real de economizar no pneu errado

Pneu barato que dura metade do tempo é gasto disfarçado. Calcule o custo por quilômetro:

  • Pneu de R$ 300 que dura 30.000 km custa R$ 0,01/km
  • Pneu de R$ 200 que dura 15.000 km custa R$ 0,013/km

O mais barato sai mais caro por quilômetro rodado, e isso sem contar o risco maior de uma batida, de uma retenção por pneu fora das especificações ou de um furo no meio de uma corrida.

Para fechar as contas da operação, vale calcular todos os custos fixos do veículo, não só o combustível. A manutenção preventiva do carro de app entra nessa conta de forma direta.

Checklist antes de comprar o pneu

Antes de ir à loja ou fechar uma compra online:

  1. Anote a medida exata que está na coluna da porta do seu carro (ex: 195/65 R15 91H)
  2. Confira o índice de carga e de velocidade; pode ser maior que o original, nunca menor
  3. Compare as etiquetas do Inmetro dos modelos disponíveis e priorize aderência molhada
  4. Leia o código DOT e recuse pneu com muitos anos de estoque
  5. Prefira touring ou highway terrain para uso urbano intenso
  6. Compre os quatro de uma vez ou pelo menos os dois do mesmo eixo, iguais entre si
  7. Inclua balanceamento no serviço de montagem

Faça o teste hoje mesmo: agache ao lado do carro, ache o TWI e veja quanto sulco ainda sobrou. Leva dois minutos e responde se a sua próxima compra é para o mês que vem ou para esta semana.